Eu simplesmente não pertenço a nada. Sou uma erva daninha que logo é arrancada de qualquer lugar. Uma florida, que ocupa espaço.
As ervas daninhas são tão lindas…
Quando era pequena eu tinha uma blusa rosa e tinha escrito nela: erva daninha. A adorava.
Nunca fiz parte de nada.
Aprendi isso tão cedo…
Meus cabelos já sabiam antes de mim. E meus dedos choravam.
E em mim, sempre teve essa coisa à borbulhar.
Me sentia tão morta. É difícil não morrer quando já se está morta.
Caio aos poucos.
Nunca fiz parte de nada.
Me arrancam aos poucos e breve. Eu mesma me arranco.
Sou um cisco qualquer em algum lugar.
Não pertenço nem a mim mesma.
Não há como. Nada é meu.
Invadi esse corpo e o dilatei. O fiz meu e hoje o uso sem permissão. O uso como se usa um chapéu. Mas não uso chapéu. O que uso é ele, e nem ele me pertence.
Doce é as horas que circulava pensando que pertencia a ele.
Avistava as crianças, as flores. Acorrentava tudo a mim e era só. Pertencia a cada olho e mão.
O vivo me dói.
Marcam em mim um posto e eu o nego, como sempre fiz.
O que veem é só a casca. O que pensam ser eu, não é nada mais que pó.
Absolutamente nada.
Chamam-me de admirável, encantadora e graciosa. Servem-me em uma taça estrelas e luas, e me dão de beber. Cavam o ato de eu ser nova e sutil. A mim dão o ar de um universo e todas as palavras do mundo. Sou a eles um manto, um grão sagrado que circula o mundo.
Diante de tudo isso, rio e sangro. Pois não sabem de nada, nunca me viram, nunca tocaram, nunca sentiram. O que viram foi a casca.
E mesmo ao me aplaudirem, sou arrancada. Sempre sou.
E o cisco se vai, em romper ao arder de qualquer tarde.
